by Eric Arruda
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Há alguns dias assisti a um vídeo sobre um tema que chamou minha atenção: a ruminação.
É um conceito estudado pela psicologia e pela neurociência para explicar aquele hábito de ficar mastigando o mesmo pensamento repetidas vezes. A pessoa revisita a mesma situação, faz novas interpretações, cria hipóteses, tenta encontrar respostas mas, no final, continua exatamente no mesmo lugar.
Enquanto assistia ao vídeo, pensei imediatamente em muitas pessoas que acompanhei ao longo dos últimos anos. Não porque elas tivessem algum transtorno. Mas porque esse mecanismo aparece com muita frequência quando alguém está vivendo uma grande decisão profissional.
É curioso observar isso. A pessoa costuma dizer que está refletindo. Mas, quando olhamos com calma, percebemos que ela não está produzindo uma reflexão nova. Ela apenas está repetindo os mesmos argumentos, as mesmas dúvidas e os mesmos medos.
“Será que vale a pena sair?”
“E se eu me arrepender?”
“Talvez eu devesse esperar mais um pouco.”
“Talvez ainda não seja a hora.”
Depois de alguns meses, a conversa continua exatamente igual. O curioso é que a maioria das pessoas acredita que o excesso de pensamento aumenta a clareza. Na prática, muitas vezes acontece o contrário. Quanto mais tempo ela passa tentando encontrar uma resposta perfeita, mais difícil fica enxergar o problema como ele realmente é.
Isso acontece porque a mente começa a discutir possibilidades infinitas. E possibilidades infinitas nunca terminam. Na transição de carreira existe uma armadilha muito comum. A pessoa acredita que primeiro precisa descobrir exatamente qual será o próximo passo para só depois começar a caminhar.
Minha experiência mostra outra coisa. A clareza quase nunca aparece antes do movimento. Ela aparece durante o movimento. Foi assim comigo. Quando decidi deixar uma carreira executiva para empreender, eu não tinha todas as respostas.
Se esperasse o momento de certeza absoluta, provavelmente continuaria no mesmo lugar até hoje. O que eu tinha era direção suficiente para dar o próximo passo. Depois dele veio o seguinte. E depois outro. É interessante porque, quando lembramos das grandes decisões da nossa vida, quase nenhuma foi tomada com garantia de sucesso.
Escolher uma faculdade.
Casar.
Ter filhos.
Mudar de cidade.
Aceitar uma promoção.
Abrir uma empresa.
Nenhuma dessas decisões veio acompanhada de um manual dizendo que tudo daria certo.
Mesmo assim seguimos.
Então por que justamente na transição de carreira acreditamos que precisamos eliminar toda a incerteza antes de agir?
Talvez porque, nessa fase da vida, já tenhamos muito mais a perder.
Carreira construída. Tem reconhecimento. Tem responsabilidades financeiras. Gastos e segurança para a família.
Tudo isso pesa. E deve pesar mesmo.
A questão é que existe uma diferença importante entre prudência e paralisia. Prudência ajuda você a construir uma boa decisão. É extremamente importante discernir. Paralisia apenas adia uma decisão que já está madura há muito tempo. Nos processos de Travessia costumo perceber que a maioria dos clientes não chega sem informação.
Eles chegam cansados de pensar.
Já leram livros, assistiram vídeos, perguntaram para IA, conversaram com amigos e fizeram listas de prós e contras.
O que falta não é conhecimento. É alguém que os ajude a organizar esse conhecimento e transformá-lo em decisão.
Pensar é importante, refletir também.
Mas existe um momento em que continuar pensando deixa de ser inteligência e passa a ser apenas uma forma elegante de permanecer exatamente onde você está.
Talvez a pergunta mais útil não seja: “Será que já pensei o suficiente?”
Talvez seja outra.
Qual pequena ação concreta eu posso realizar esta semana para descobrir algo que apenas pensar nunca vai me mostrar?
O que é overthinking?
Overthinking pode ser definido como um padrão de pensamento em que a pessoa analisa, revisita ou antecipa situações repetidamente, sem chegar a uma conclusão útil ou tomar uma decisão.
Existem duas formas principais:
Ruminação
- É orientada para o passado.
- A pessoa revive acontecimentos, erros, rejeições ou perdas.
- Perguntas comuns:
- “Por que isso aconteceu comigo?”
- “O que eu deveria ter feito diferente?”
Preocupação excessiva (Worry)
- É orientada para o futuro.
- A mente tenta prever todos os riscos possíveis.
- Perguntas comuns:
- “E se der errado?”
- “E se eu perder tudo?”
Embora sejam diferentes, as duas podem acontecer ao mesmo tempo.
Como a neurociência explica isso?
A neurociência mostra que o overthinking não acontece porque a pessoa é “fraca” ou “dramática”. Ele surge da interação entre diferentes sistemas cerebrais.
1. A Rede de Modo Padrão (Default Mode Network – DMN)
Quando você não está concentrado em uma tarefa específica, seu cérebro ativa uma rede chamada Default Mode Network.
Ela é importante para:
- refletir sobre si mesmo;
- lembrar do passado;
- imaginar o futuro;
- construir identidade.
O problema surge quando essa rede fica hiperativa. Em vez de produzir reflexão saudável, ela entra em ciclos repetitivos de pensamento. É exatamente aí que aparece a ruminação.
2. A amígdala cerebral
A amígdala funciona como um detector de ameaças.
Quando ela interpreta uma situação como perigosa (uma demissão, uma rejeição, uma mudança de carreira), ela aumenta o estado de alerta.
Quanto maior esse alerta, mais difícil fica interromper pensamentos negativos.
3. O córtex pré-frontal
É a região responsável por:
- planejamento;
- tomada de decisão;
- controle emocional;
- raciocínio lógico.
Em situações de estresse prolongado, ele perde eficiência. Por isso a pessoa sente que: “Eu penso o dia inteiro, mas não consigo decidir.” Não é falta de inteligência. É um cérebro funcionando sob excesso de carga emocional.
4. O eixo do estresse
Quando a pessoa permanece muito tempo preocupada, ocorre maior ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Isso aumenta a liberação de cortisol.
Consequências frequentes:
- piora da memória;
- dificuldade de concentração;
- sono ruim;
- irritabilidade;
- fadiga mental;
- dificuldade para tomar decisões.
Ou seja, pensar demais gera mais estresse. E mais estresse faz pensar ainda mais. Forma-se um ciclo.
O grande erro
A maioria das pessoas acredita: “Se eu pensar mais um pouco, vou encontrar a resposta.” A ciência mostra que isso nem sempre acontece. Em muitos casos ocorre justamente o contrário.
Quanto mais a pessoa rumina, mais:
- aumenta emoções negativas;
- diminui a confiança;
- piora a resolução de problemas;
- reduz a capacidade de agir.
Ela sente que está trabalhando no problema. Na verdade, está apenas repetindo o problema.
Referências deste artigo:
Nolen-Hoeksema (ruminação)
Hamilton et al. (Default Mode Network)
Watkins (pensamento repetitivo)
Beck (Terapia Cognitivo-Comportamental)
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